Histórico do local
Em meados da década de 1970, alguns pontos de São Paulo comumente eram eleitos para o encontro entre integrantes de diversos times de várzea da cidade, que aproveitavam o espaço de sociabilidade para marcar jogos para suas equipes. Um desses pontos de encontro ficava próximo ao Largo da Concórdia, no bairro do Brás. E foi em tal lugar que Antônio Fermiano, apelidado Pescuma, homem bastante envolvido com o futebol de várzea na cidade, tomou para si a incumbência de organizar uma liga de futebol que envolvesse diversos times.
Antônio recebeu o apelido por conta de sua semelhança física com Nelson Pescuma, zagueiro que integrou o time da Associação Portuguesa de Desportos campeão paulista de 1973. Outro apelido menos consagrado que ele recebeu foi de Canelão. O Paulistano do Iguatemi foi um dos times em que Pescuma mais jogou. Após a criação a liga de futebol, o seu envolvimento com a organização o fez abrir mão de atuar como jogador. Após a morte de seu fundador, a Liga Pescuma passou a ser gerida por sua filha, Eliane Fermiano, apelidada Nêga, que também assumiu a presidência do time Meninos Unidos, do Laranjeiras, equipe presidida por seu pai até o falecimento.
Ao contar sobre sua infância, Nêga lembrou-se de muitas situações: das pessoas reunidas em um certo espaço; de vários homens barganhando o local dos jogos de seus times em campos próximos às sedes dos mesmos; da discussão em torno da ajuda de custo paga aos times visitantes (por parte dos times da casa) mediante o preenchimento de uma espécie de contrato, etc.
Nêga acreditava que as negociações entre esses homens era uma briga, mas, diante de tais situações, seu pai sempre aparecia para acalmá-la e para dizer que aquilo era apenas uma discussão em torno da marcação de jogos entre diversos times. Muitos convites feitos pelo pai de Nêga para que ela retornasse ao local da marcação dos jogos foram recusados: “Ah, não vou não. Lá só tem louco!”, enfatizou a entrevistada.
Após o falecimento de seu pai, Nêga assumiu os postos que ele ocupava, inclusive a presidência da Liga Pescuma. Em suas palavras, “depois que ele faleceu, muita coisa eu tive que descobrir, aprender. Às vezes eu falava: eu tive um excelente professor e não quis aprender com ele”. Nêga salientou que o processo de aprendizagem das tarefas exercidas por seu pai foi muito complicado. Por conta disso pensou em abandonar a iniciativa, visto que em certas situações (como sentar-se em uma mesa composta exclusivamente por homens) ela não se sentia à vontade.
A persistência de Nêga deve-se, em grande parte, ao seu objetivo de dar continuidade à obra do pai, um sonho para o qual ele dedicou a vida em busca de sua concretização. De início, a maioria dos homens pouco se entusiasmou com a presença da interlocutora, visto que ela, enquanto organizadora de uma liga de futebol, nunca jogou tal esporte. No entanto, ela ponderou que, depois de um ano de experiências, amizades feitas e macetes apreendidos, tornou-se mais fácil ocupar o posto de presidenta da Liga Pescuma. Além disso, o companheirismo de seu marido contribuiu para que ela se estabelecesse no universo masculino do futebol de várzea de São Paulo.
A prontidão de Fernandes Naterio (mais conhecido como Fernando), marido de Nêga, foi de grande valia para que ela tivesse êxito em suas atividades relacionadas ao futebol. Nascido em São Paulo, no bairro da Penha, Fernando atualmente mora no bairro Laranjeiras, vinculado à subprefeitura de São Mateus. Em virtude do crescimento da Liga e de suas demandas, dedica-se integralmente a ela, sendo responsável pelas questões administrativas (como a providência dos registros jurídicos e burocráticos necessários, ou a assistência aos times que queiram se filiar, mas que carecem de tais registros).